3. REPORTAGENS maro 2013

1. CAPA  OS SETE MAIORES MISTRIOS DO UNIVERSO  E AS NOVAS DESCOBERTAS DA CINCIA SOBRE ELES
2. ATUALIDADES - O MRTIR DA INTERNET
3. CULTURA  BERLIM  A CIDADE MAIS LEGAL DO MUNDO
4. ZOOM  P E PEDRA
5. SADE  REMDIO DE NDIO
6. ATUALIDADES  O ANTI-HERI DO ANTIVRUS
7. TECNOLOGIA  A PEDRA DE R$ 5 TRILHES

1. CAPA  OS SETE MAIORES MISTRIOS DO UNIVERSO  E AS NOVAS DESCOBERTAS DA CINCIA SOBRE ELES
Eles atormentam a humanidade desde o incio dos tempos. E parecem no ter soluo. Mas isso no significa que no possamos desvend-los; ou pelo menos tentar. Conhea as novas respostas para as questes mais importantes  e mais difceis  que existem.
EDIO / Bruno Garattoni
TEXTO / Eduardo Szklarz

QUESTO 1  DEUS EXISTE?
     O unicrnio  um cavalo com barbicha, um chifre na testa e supostos poderes mgicos. Ele no existe, claro,  uma inveno. S que isso  impossvel de provar. Da mesma forma, no temos nenhum indcio objetivo da existncia de Deus  que pode perfeitamente ser apenas uma criao humana. Mas isso tambm  impossvel de provar.  que a nica maneira de provar definitivamente uma coisa  usar o chamado mtodo cientfico, que foi proposto por Galileu Galilei no sculo 16 e tem quatro etapas. Primeira: observar um fato concreto. Segunda: fazer uma pergunta sobre ele. Terceira: elaborar uma hiptese, ou seja, uma resposta  pergunta. Quarta: fazer uma experincia controlada para confirmar ou negar a hiptese. Simples, no? Mas com o unicrnio, tropeamos j na primeira etapa  porque no existe nenhum elemento concreto, como um pedao de cabelo ou qualquer outra pista deixada por um unicrnio. Com Deus, voc consegue passar pelas primeiras fases.  possvel observar um fato concreto (o Universo existe) formular uma pergunta a respeito (foi Deus que o criou?) e elaborar uma hiptese (sim ou no). Mas como vencer a quarta etapa  e criar uma experincia cientfica que pudesse confirmar ou negar Deus?  difcil at de imaginar. Isso ajuda a explicar por que a existncia de Deus divide a opinio dos cientistas. Um estudo feito nos EUA peto instituto Pew  revelou que 51% deles admitem a existncia de alguma forma de poder divino (contra 95% na populao em geral). 
     Alguns pesquisadores vo alm do impasse, e dizem ter evidncias de que Deus existe  ou inexiste. A primeira categoria  liderada por Francis S. Collins, que foi diretor do Projeto Genoma Humano e hoje dirige os Institutos Nacionais de Sade (NIH), principal rgo de cincia do governo nos EUA. Para ele, a prova da existncia de Deus  chamada sintonia fina. Por essa tese, o Big Bang obedeceu a alguns parmetros muito precisos e coordenados entre si. Se a fora que mantm unidos os prtons e os nutrons fosse um pouco menor, por exemplo, s o hidrognio teria se formado  e no existiria a matria-prima da vida, o carbono. Para Collins, nossa existncia depende de tantas variveis, numa combinao matematicamente to improvvel, que no pode ser acaso. "A sintonia fina no  acidental. Ela reflete a ao de algo que criou o Universo", diz. 
     O polo ateu  liderado pelo fsico Victor Stenger, professor da Universidade do Hava e autor de God: The Fai/ed Hypothesis ("Deus: a tese fracassada", indito no Brasil). Ele descarta a tese da sintonia fina. Diz que o Universo no foi sintonizado para ns; ns  que somos adaptados s condies dele. Tambm apresenta exemplos de como o Universo simplesmente no precisa de Deus. "At o sculo 20, acreditava-se que a matria no poderia ser criada nem destruda, s transformada de um tipo para outro". Se  impossvel criar matria, a existncia dela s poderia ser um milagre. "Mas a Einstein provou que a matria pode ser criada a partir de energia, sem violar as leis da fsica", diz. "A cincia pode provar que Deus no existe? A resposta  sim". Mas ele mesmo faz ressalvas. "No me refiro a uma prova lgica [definitiva], mas a uma prova acima de dvida, como a usada num tribunal." Traduzindo: para Stenger,  possvel provar que nada depende de Deus, e a partir da inferir que ele no existe. Mas mostrar que ele no existe, felizmente para uns e infelizmente para outros, continua impossvel.

QUESTO 2  DE ONDE VIEMOS
     O Universo surgiu h 13,7 bilhes de anos como um pontinho muito pequeno e denso, que se expandiu e deu origem a tudo o que existe  as estrelas, os planetas, voc e eu. Essa  a histria do Big Bang. Mas o que aconteceu antes dele? A hiptese mais tradicional (e mais frustrante tambm) diz que o tempo surgiu junto com a exploso, e portanto no existe "antes do Big Bang". A outra  de que houve outros universos antes do nosso. E haver outros depois dele, numa sequncia eterna de renascimentos. "Cada ciclo comea com seu prprio Big Bang", diz Roger Penrose, professor da Universidade de Oxford e um dos fsicos mais importantes da segunda metade do sculo 20. Para ele, cada universo se expande at que suas partculas perdem massa e do lugar a uma espcie de vcuo, o tempo para e aquele universo morre  para se transformar em outro por meio de um Big Bang. Penrose tenta provar a tese em seu novo livro, Cycles of Time: An Extraordinary New View of the Universe ("Ciclos do tempo", indito no Brasil). 
     Ideias heterodoxas como essa esto longe de ser aceitas pela maioria dos cientistas. Mas vm ganhando espao, pois a lgica tradicional do Big Bang no consegue explicar tudo. Ela explica apenas 4% do Universo, porcentagem que corresponde  matria e  energia que ns podemos perceber (e que formam galxias, planetas e seres). Todo o resto, 96%, supostamente  preenchido por coisas estranhas: a energia escura e a matria escura, que no somos capazes de ver. A teoria do Big Bang tampouco explica por que o Universo est se expandindo cada vez mais rpido, num fenmeno chamado acelerao csmica. Para alguns fsicos, a responsvel por isso  justamente a tal energia escura  que far nosso Universo se expandir at acabar e renascer, mais ou menos como Penrose prope. 
     Mais estranhamente ainda, talvez existam vrios universos alm do nosso. Isso porque, segundo uma tese bem aceita, o Big Bang no foi homogneo. Uma poro do espao teria se inflado muito rpido, como uma tira de borracha, e nosso Universo estaria dentro dela. "Outras partes do espao podem ter se expandido em outros momentos", diz o fsico Marcelo Gleiser, da Universidade Dartmouth. "Haveria ento outros universos, separados por espaos gigantescos". Todos existindo ao mesmo tempo. 
     Alm de tentar descobrir de onde viemos, a cincia tambm luta para explicar como nascemos, ou seja, como tudo o que existe se formou. Nisso, tem feito grandes progressos. Tudo graas ao famoso bson de Higgs, partcula que finalmente foi detectada ano passado. O bson  uma pea-chave porque deu massa s demais partculas que compem o nosso Universo. Logo aps o Big Bang, o Universo era um caos de partculas subatmicas viajando na velocidade da luz. S que ele estava cheio de bsons  e conforme as partculas entraram em contato com os bsons, algumas ganharam massa e outras no. As partculas de luz (ftons), por exemplo, no ganharam massa. Mas outras, como os quarks, sim  e se transformaram em tudo o que existe. As estrelas, os planetas, voc e eu. 

QUESTO 3  QUAL  O SENTIDO DA VIDA
     A cincia prope duas explicaes para essa dvida metafsica. A primeira, mais tradicional, : o sentido (objetivo) da vida  se reproduzir, ou seja, ter filhos. Ponto. Isso vale tanto para ns como para o sabi, o cordeiro patagnico ou o bicho-da-seda. Pelo menos  o que diz a tese do gene imortal, uma das mais populares da biologia evolutiva. Ela tem sido desenvolvida desde os anos 1970 pelo bilogo britnico Richard Dawkins, e reinterpreta a teoria da evoluo de Darwin. 
     A transmisso de informao gentica entre pais e filhos no  perfeita. Podem ocorrer erros: as mutaes. Eles sempre acontecem  em mdia, cada humano nasce com 60 mutaes. Esses erros no DNA podem provocar sndromes e doenas, mas tambm podem ser positivos. Se um indivduo tem uma mutao que o torna mais apto que os demais (mais forte ou mais bonito, por exemplo), ele tende a se reproduzir mais e espalhar essa mutao na sociedade. Os mais aptos permanecem e os demais desaparecem.  a chamada seleo natural. 
     Dawkins fez uma ligeira modificao nessa teoria. Para ele, os protagonistas da seleo natural no so as espcies nem os indivduos: so os genes. Ns seramos meras mquinas de sobrevivncia que os genes construram para se preservar ao longo das geraes. "As mquinas de sobrevivncia tm aparncia muito variada. Um polvo no se parece em nada com um rato, e ambos so muito diferentes de uma rvore. Mas, em sua composio qumica, eles so quase iguais", escreve Dawkins.  verdade. Cada ser vivo tem um cdigo gentico diferente  mas ele sempre  construdo com as mesmas molculas. E a nossa misso na Terra  espalhar essas molculas. "Todos ns, desde as bactrias at os elefantes, somos mquinas de sobrevivncia para o mesmo tipo de replicador; as molculas de DNA." Como h vrios tipos de ambiente no mundo, os replicadores construram uma ampla gama de mquinas para prosperar neles. Um macaco preserva os genes nas copas das rvores; um peixe preserva os genes na gua, e assim por diante. Os genes tambm nos dotaram de instintos que nos levam  reproduo   por isso que o sexo  to prazeroso, e a atrao sexual to forte. A tese do gene imortal  convincente e elegante. Mas no explica tudo. 
     O crebro humano possui um mecanismo chamado sistema de recompensa. So grupos de neurnios situados em certas regies, como o septo  que fica bem no centro do crebro. Toda vez que fazemos algo fsica ou mentalmente agradvel, qualquer coisa mesmo, esses neurnios causam a liberao de dopamina, neurotransmissor responsvel pela sensao de prazer. As demais reas do crebro so inundadas pela dopamina  inclusive aquelas que manejam o autocontrole e as emoes. Voc sente prazer. E tem vontade de sentir de novo. E de novo. E de novo... O sistema de recompensa tem uma influncia gigantesca sobre nossas aes e decises. Sempre que voc se sente bem, ou mal,  esse sistema que est fazendo isso acontecer. E ele nem sempre nos guia no caminho de gerar descendentes  voc deve conhecer gente que no tem filhos, nem quer ter, e est muito bem assim. Porque existe uma segunda explicao para o sentido da vida. Em vez de espalhar genes, o objetivo pode ser contentar o sistema de recompensa. Traduzindo: ser feliz. 
     O sistema de recompensa foi descoberto nos anos 1950 pelos psiclogos James Olds e Peter Milner, da Universidade McGill, no Canad. Usando eletrodos, eles notaram que um rato sempre voltava a um ponto da gaiola para receber um choquinho (prazeroso) no septo. Chegou a passar 7 mil vezes por hora, sem ligar para nada mais. Nem para os prprios filhotes. "O animal vai se estimular com frequncia, e por longos perodos, se puder faz-lo", concluram Olds e Milner. Hoje a cincia sabe que outras coisas (drogas, acar, gordura, sexo) tambm tm o poder de atuar nessas reas. Por isso elas so to atraentes  e, em algumas pessoas, podem se tornar viciantes 

QUESTO 4  O QUE ACONTECE APS A MORTE?
     Quando morreu pela primeira vez, em 1993, o empresrio americano Gordon Allen estava a caminho da UTI. Havia sofrido uma parada cardaca momentos antes. Seu sangue deixou de fluir, a respirao se deteve, o crebro apagou. Mesmo assim, ele sentiu algo. "Fui transportado para fora do corpo e comecei a viajar. No senti dor, apenas leveza. Vi cores maravilhosas, que no existem na Terra", recorda Allen no site da fundao que leva seu nome. Os mdicos o ressuscitaram com um desfibrilador. 
     Assim como Gordon Allen, milhares de pessoas que tiveram morte clnica foram trazidas de volta. "H uma semelhana incrvel nos relatos", diz Maria Julia Kovcs, coordenadora do Laboratrio de Estudos sobre a Morte da USP. "Muitos dizem ter visto um tnel e uma luz branca. Outros vem uma imagem de Deus." Os relatos tambm incluem encontros com parentes mortos e a sensao de estar fora do corpo. So as chamadas experincias de quase-morte (EQM). A explicao mais aceita  que se trata de alucinaes, causadas pela falta de oxignio no crebro. Um estudo feito em 2010 pela Universidade George Washington monitorou o crebro de sete pacientes terminais. Em todos os casos, a atividade cerebral disparava logo antes da morte. Isso supostamente acontece porque, conforme os neurnios vo morrendo, perdem a capacidade de reter carga eltrica  e comeam a descarregar numa sequncia anormal, que poderia provocar alucinaes. 
     O intrigante  que, durante a EQM, s vezes a pessoa v coisas que realmente aconteceram  e que ela, em tese, no teria como saber. "Muitos pacientes dizem ter se encontrado com um parente que ningum sabia que havia morrido. Nem o prprio paciente. Por exemplo, um tio que morreu minutos antes de o paciente ter a EQM", disse o psiquiatra Bruce Greyson, da Universidade da Virgnia, num seminrio realizado em Nova York. "Outras pessoas contam coisas que se passavam na sala do hospital [enquanto elas estavam mortas]". 
     Mas como explicar que os pacientes estejam conscientes mesmo sem atividade cerebral? Depois de acompanhar 344 sobreviventes de paradas cardacas, dos quais 18% tiveram EQM, o mdico holands Pim van Lommel criou uma teoria a respeito. "A conscincia no pode estar localizada num espao em particular. Ela  eterna", diz. "A morte, como o nascimento,  mera passagem de um estado de conscincia para outro." Ele reconhece que as pesquisas sobre EQM no provam isso, mesmo porque as pessoas com EQM no morreram  s chegaram muito perto. "Mas ficou provado que, durante a EQM, houve aumento do grau de conscincia. Isso significa que a conscincia no reside no crebro, no est limitada a ele", acredita. 

QUESTO 5  ALMA EXISTE
     Em 1901, o mdico americano Duncan Macdougall fez uma experincia com doentes terminais. Colocou cada paciente, com cama e tudo, sobre uma balana gigante. "Quando a vida cessou, a balana mexeu de forma repentina  como se algo tivesse deixado o corpo", escreveu Macdougall na poca. A balana mexeu 21 gramas, e o doutor concluiu que esse era o peso da alma. A descoberta caiu na cultura popular e at inspirou um filme (21 Gramas, de 2003). Ela no tem valor cientfico, pois a balana era muito imprecisa  e cada paciente gerou um valor diferente. Mas ser que no d para refazer a experincia com a tecnologia atual? Se alma existir mesmo, d para medir? Em tese, sim. Tudo graas a Einstein e sua equao E=mc2 (E  energia, m  massa e c  velocidade da luz). Se consideramos que a alma existe, e  uma forma de energia, ento deve haver massa relacionada a ela. Se a energia muda, a massa tambm muda. Se alma existe, e sai do corpo quando a pessoa morre, o corpo sofrer perda de massa  que pode ser medida. O mdico Gerry Nahum, da Universidade Duke, props uma experincia para testar a hiptese; construir uma caixa perfeitamente selada, que ficaria sobre uma balana hipersensvel, capaz de medir 1 trilhonsimo de grama. O problema  que, por razes ticas, no d para colocar uma pessoa moribunda dentro de uma caixa hermeticamente fechada, pois isso a faria morrer. E o teste nunca foi feito. 
     Mas os cientistas continuam em busca de evidncias para a alma. E os estudos mais surpreendentes vm de uma dupla que est na vanguarda da cincia: o anestesista americano Stuart Hameroff, do Centro de Estudos da Conscincia do Arizona, e Roger Penrose  sim, o mesmo fsico de Oxford autor da teoria sobre o que veio antes do Big Bang. Mas, desta vez, a tese  ainda mais inacreditvel. Dentro de cada neurnio existiriam 100 milhes de microtbulos: tubinhos feitos de uma protena chamada tubulina. A tubulina atuaria como bit, ou seja, como menor unidade de informao que pode ser criada, armazenada ou transmitida. Os tubinhos vibram, interferem com a tubulina e geram ou processam informao  que  passada de um neurnio a outro. 
     Mas os microtbulos so to pequenos que as leis da fsica quntica se aplicam a eles. E essas leis prevem algumas possibilidades bizarras, como a superposio (uma partcula pode existir em dois lugares ao mesmo tempo). Para os pesquisadores, haveria uma relao quntica entre os tubinhos do crebro e partculas fora dele, espalhadas pelo Universo. "Quando o crebro morre, a informao quntica [gerada nos microtbulos] no fica presa. Ela se dissipa no espao-tempo", diz Hameroff. Pela mesma lgica, quando algum nasce, essa informao espalhada no Universo entraria nos microtbulos. Ou seja: a alma existiria, sim, como um conjunto de relaes qunticas entre partculas dispersas no Universo. Embora Hameroff tenha escrito centenas de pginas a respeito, nada disso tem comprovao. "No reivindico nenhuma prova. S ofereo um mecanismo cientificamente plausvel", diz. 

QUESTO 6: H VIDA FORA DA TERRA?
     Em 15 de agosto de 1977, um radiotelescpio do Instituto Seti ("Busca por Inteligncia Extraterrestre", na sigla em ingls), nos EUA, captou uma mensagem estranha. Foi um sinal de rdio que durou apenas 72 segundos, s que muito mais intenso que os rudos comuns vindos do Cosmo. Ao analisar as impresses em papel feitas pelo aparelho, o cientista Jerry Ehman tomou um susto. O sistema captara um sinal 30 vezes mais forte que o normal. Seria alguma civilizao tentando fazer contato? Ehman ficou to impressionado que circulou os dados do computador e escreveu ao lado: "Wow!". O caso ficou conhecido como Wow signal (sinal "uau"!), e at hoje  o episdio mais marcante na busca por inteligncia extraterrestre. O Seti e outras instituies tentaram detectar o sinal vrias vezes depois, mas ele nunca mais foi encontrado. 
     Mesmo assim, hoje muitos cientistas acreditam que o contato com extraterrestres  mera questo de tempo. "Numa escala de 1 (pouco provvel) a 10 (muito provvel), eu diria que nossa chance de fazer contato com ETs em meados deste sculo  8", acredita o fsico Michio Kaku, da City College de Nova York. Esse otimismo tem justificativa. "Pelo menos 25% das estrelas tm planetas. E, dessas estrelas, pelo menos a metade tem planetas semelhantes  Terra", explica o fsico Marcelo Gleiser. Isso significa que, na nossa galxia, podem existir at 10 bilhes de planetas parecidos com o nosso. Uma quantidade imensa. Ou seja: pela lei das probabilidades,  muito possvel que haja civilizaes aliengenas. O satlite Kepler, da Nasa, j catalogou 2740 planetas parecidos com a Terra, onde gua lquida e vida talvez possam existir. Um dos mais "prximos"  o Kepler 42d, a 126 anos-luz do Sol (um ano-luz equivale a 9,5 trilhes de quilmetros). 
     Kaku acredita que, para civilizaes muito avanadas, essa distncia no seria um problema  pois elas poderiam manipular o espao-tempo e utilizar portais no Cosmos, como nos filmes de fico cientfica. Ok, mas ento por que at hoje esse pessoal no veio aqui? "Se so mesmo to avanados, talvez no estejam interessados em ns", opina Kaku. " como a gente ir a um formigueiro e dizer s formigas; 'Levem-nos a seu lder'." Para outros cientistas, contudo, a existncia de civilizaes avanadas  mera especulao. E explicar por que elas no colonizaram a Terra j  querer dar uma de psiclogo de aliens. 

VIDA X VIDA INTELIGENTE 
     Tudo bem que existem bilhes de Terras por a. E que a probabilidade de existir vida l fora  muito grande. Mas no significa que seja vida inteligente. "Voc pode ter um planeta cheio de vida, mas formada por amebas e outros seres unicelulares", acredita Gleiser. Afinal, com a Terra foi assim. A vida aqui existe h cerca de 3,5 bilhes de anos. Mas durante quase todo esse tempo (3 bilhes de anos), s havia seres unicelulares: as cianobactrias, tambm chamadas de algas verdes e azuis. 
     Alm disso, no basta o tempo passar para que as formas de vida se tornem complexas e inteligentes. A funo essencial da vida  se adaptar bem ao ambiente onde ela est. A vida s muda  na esteira de alguma mutao gentica  se uma mudana ambiental exigir que ela mude. Assim, se o ambiente no mudar e a vida estiver bem adaptada, as mutaes genticas que em geral aparecem ao longo de geraes no vo fazer diferena. Tudo depende da histria de cada planeta. Se o asteroide que matou os dinossauros h 65 milhes de anos no tivesse cado aqui na Terra, e os dinossauros no tivessem sido extintos, no estaramos aqui. 
     "No temos nenhuma prova ou argumento forte sobre a existncia de vida inteligente fora da Terra", diz Gleiser. "Existe vida? Certamente. Mas como no entendemos bem como a evoluo varia de planeta para planeta,  muito difcil prever ou responder se existe ou no vida inteligente fora daqui", completa. "Se existe, a vida inteligente fora da Terra  muito rara." Decepcionante. 
     Mas antes de lamentar a solido da humanidade no Cosmos, saiba que ela pode ser uma boa notcia. Porque se aliens inteligentes realmente existirem, no sero necessariamente bondosos. "Se eles algum dia nos visitarem, acho que o resultado ser o mesmo que quando Cristvo Colombo chegou  Amrica. No foi bom para os ndios nativos", comparou certa vez o fsico Stephen Hawking. 

QUESTO 7 - DESTINO EXISTE?
     Uma pergunta aparece com frequncia nas provas de vestibular. Voc sabe onde um objeto est no momento inicial (t = 0) e precisa usar equaes para determinar onde ele estar num momento futuro (como t = 5). Basta usar algumas frmulas. D para calcular a velocidade do carro dividindo a distncia pelo tempo. Ou descobrir a fora exercida sobre ele multiplicando a massa pela acelerao (a Lei de Newton, lembra?). A fsica clssica  assim: ela descreve o mundo seguindo leis fixas e permanentes. E essas leis permitem prever o que vai acontecer. 
     Agora pense no seguinte. O Big Bang foi uma exploso que espalhou partculas pelo Universo, certo? Ento, usando as leis da fsica, em tese  possvel calcular exatamente onde essas partculas iro estar e o que elas iro fazer. O deslocamento e as interaes dessas partculas j esto traados  porque so apenas uma consequncia do que aconteceu na origem do Universo. Ou seja: por esse raciocnio, destino existe, sim. E, como ns somos feitos de partculas, ele existe para ns tambm. Essa  a base do determinismo  a ideia de que o comportamento de um sistema pode ser determinado a partir de suas condies iniciais. Se quisermos levar essa ideia ao extremo, podemos dizer que at as nossas decises j esto traadas. Afinal, o pensamento deriva de um fenmeno fsico (o deslocamento de eltrons e neurotransmissores dentro do crebro). E, como tal, ele deve ter uma trajetria previsvel. 
     Voc deve estar duvidando disso. Afinal, voc  livre para tomar as prprias decises. Pode continuar a ler este texto ou escolher se levantar e ir pegar um caf, por exemplo. Mas h indcios de que no  bem assim  e quando nossa conscincia resolve fazer algo, na verdade o crebro j decidiu sozinho. Essa hiptese foi comprovada em laboratrio pelo cientista John-Dylan Haynes, do Centro de Neuroimagem Avanada de Berlim. Numa experincia criada por ele, os participantes receberam um joystick que tinha dois botes, um para cada dedo indicador. Em algum momento, quando achassem que deveriam, os voluntrios estavam livres para decidir qual dos dois botes apertar. Tomada a deciso, deveriam pression-lo imediatamente. Por imagens de ressonncia magntica, Haynes percebeu que o crtex pr-frontal dos voluntrios (regio cerebral responsvel pela tomada de decises) era ativado at dez segundos antes de a pessoa resolver apertar o boto. "Nossa mente consciente acredita que somos livres para escolher entre diferentes opes, mesmo quando o crebro j decidiu o que vai acontecer", diz Haynes. 
     Isso s foi provado em situaes muito simples. "Decises complexas so mais difceis de investigar com um scanner cerebral.  difcil colocar algum no aparelho e dizer: 'Por favor, agora decida com quem voc vai se casar'." Mesmo assim, a descoberta abre um caminho intrigante: alm do destino csmico, poderia existir tambm uma espcie de destino neurolgico, traado por decises que nosso crebro toma sem nos avisar. "Nossos experimentos tornam o determinismo bastante provvel. Mas ainda precisamos de muita pesquisa para prov-lo", diz Haynes. Ento, se destino existe e j est traado e no temos livre-arbtrio, devemos parar de tentar controlar ou melhorar nossas vidas e simplesmente ficar no sof vegetando?  claro que no. A fsica clssica explica bem o mundo ao nosso redor. Mas ela derrapa na hora de descrever o mundo das partculas muito pequenas. Isso tem sido tarefa para a fsica quntica  onde muitas coisas so imprevisveis. "O determinismo estrito no funciona", diz o fsico Marcelo Gleiser. "Ns no somos a soluo de uma equao complexa. At porque ningum sabe que equao  essa. E mesmo que algum soubesse, nunca conseguiria resolve-la", afirma. "Uma das caractersticas da inteligncia  justamente o livre-arbtrio. E quanto mais complexo o crebro , mais liberdade de escolha ele tem. A menos que ns sejamos uma simulao rodando num computador gigante. Mas a j  uma outra histria." 

PARA SABER MAIS 
Cycles of Time Roger Penrose, Vintage Books, 2012. 
Criao Imperfeita Marcelo Gleiser, Record, 2010. 
A Linguagem de Deus Francis Collins, Gente, 2007. 
Consciousness Beyond Life Pim van Lommel, HarperCollins, 2010. 
God, The Failed Hypothesis Victor J. Stenger, Prometheus Books, 2007 


2. ATUALIDADES - O MRTIR DA INTERNET
Quando completou 26 anos, Aaron Swartz j havia lutado pela informao livre na internet, por uma poltica mais transparente e pela divulgao de trabalhos cientficos acessveis a todos. E essas causas acabaram lhe custando a vida.
REPORTAGEM / Ronaldo Lemos (Ronaldo Lemos  advogado, diretor do Creative Commons Brasil e coordenador da rea de propriedade intelectual da Fundao Getulio Vargas no Rio de Janeiro)
EDIO / Karin Huek
DESIGN/ Fabricio Miranda
ILUSTRA/ ndio San

     A primeira Vez que encontrei Aaron Swartz foi na Universidade Harvard. Havia um importante seminrio acontecendo sobre o futuro da msica. O ano era 2004. Gravadoras, artistas e pblico ainda se recuperavam do choque do Napster, o site que deu incio ao compartilhamento de arquivos na internet e transformou para sempre a economia da msica. Naquela mesa discutia-se o que fazer com a crise da indstria musical. A pirataria certamente no era um caminho. Era preciso construir alternativas que remunerassem os artistas, ampliando tambm as formas de acesso  msica. No meio de discusses acaloradas, um garoto chamava ateno. Ele estava ali no meio de acadmicos mundialmente conhecidos, como Lawrence Lessig e William Fisher, professores de direito de Harvard, ambos ligados s questes de distribuio de informaes na internet. Pensei que se tratasse do filho de algum. No demorou para perceber meu erro. Aaron estava l por causa de suas prprias ideias. Articulado, conhecia tudo sobre direitos autorais e sobre a indstria musical, temas que ainda quebram a cabea de muita gente at hoje. Para completar, o garoto era tambm um exmio programador. Poucas pessoas naquela sala dominavam campos de conhecimento to vastos e complexos. 
     Em 11 de janeiro de 2013, Aaron foi encontrado morto por sua namorada, a ativista Taren Stinebrickner-Kauffman, em seu apartamento no Brooklyn, em Nova York. A tragdia virou comoo global. TVs e jornais do mundo inteiro escreveram sobre ele. Mas foi nas redes sociais que a dimenso da perda foi sentida com maior intensidade. No s os amigos de Aaron, mas um vasto contingente de desconhecidos, que nunca tinham ouvido falar dele antes, lamentaram sua morte. E lamentaram tambm a perseguio judicial que acabou causando a tragdia. 
     Aos 14 anos, Aaron fez um feito incrvel. Ele foi o co-autor de um padro que mudaria a forma como a informao  distribuda na internet, o chamado RSS (Real Simple Syndication). O padro permite de forma simples espalhar a informao por meio de feeds na rede: fluxos de dados que o usurio pode assinar e acompanhar em qualquer aparelho, seja no PC, no celular ou no tablet. Para entender a importncia de sua inveno, basta ver o Google Reader ou at mesmo os feeds de notcias de seus amigos no Facebook ou no Twitter: todos surgiram a partir da ideia criada por ele. 
     Tem gente que compara Aaron Swartz a Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, ou mesmo a Steve Jobs, da Apple. Como Zuckerberg, Aaron tinha a veia de empreendedor. Aos 18 anos, criou a empresa Infogami, que foi vendida ao site Reddit, hoje parte do poderoso grupo de mdia Cond-Nast. De Steve Jobs, ele tinha o mesmo brilhantismo para solues inesperadas e para pensar fora da caixa. Assim como Jobs, ele circulava pelas principais universidades de elite dos EUA, como Stanford, Harvard e o MIT, mas sem ter nunca concludo um curso. Se tivesse vivido mais, Aaron poderia ter criado o novo Google ou um novo Facebook. Possivelmente teria se tornado bilionrio. S que isso no o satisfazia. Ele queria ir alm. Queria mudar o mundo. 

A REVOLUO ESTA NA REDE 
     Para fazer isso, comeou a se envolver em iniciativas de interesse pblico. Por exemplo, o projeto Creative Commons, que cria licenas livres de direitos autorais e que  hoje utilizado por sites como a Wikipedia ou nas aulas da Khan Academy, aqueles cursos do YouTube abertos para qualquer um. Com isso, ficou amigo do professor Lawrence Lessig, que acabara de se tornar diretor do Centro de tica de Harvard. Lessig chamou Aaron para se juntar a ele em uma misso ambiciosa; reformar o Congresso americano. Na viso deles, o sistema poltico dos EUA estava perdendo transparncia e representatividade. O trabalho de Aaron era pensar novas formas de financiamento de campanha, que permitam que os eleitores contribuam diretamente para seus candidatos, em vez de deixar o financiamento na mo das grandes empresas. 
     Mas, como visionrio e idealista, Aaron tambm cometia erros. Para defender uma das causas que julgava mais importantes, o acesso pblico ao conhecimento cientfico, Aaron acabou envolvido na sucesso de eventos que desencadearia sua morte. Na sua viso, o conhecimento acadmico deveria ser acessvel para toda a humanidade pela internet. Afinal, dizia ele, grande parte das pesquisas cientficas  produzida com recursos pblicos. 
     Como um bom integrante da impaciente gerao Y, que quer fazer tudo acontecer na hora, ele decidiu executar seu plano com as prprias mos. Foi at o MIT, o Massachusetts Institute of Technology, onde tinha diversos amigos e colaboradores, e deixou seu computador fazendo o download de mais de 4 milhes de artigos acadmicos gerenciados pela biblioteca virtual JSTOR, que rene publicaes cientficas, livros e pesquisas. No processo, acabou sendo pego pelo MIT, que tomou a deciso de entreg-lo  polcia local. Vale notar que Aaron nunca colocou os artigos na internet. Seu erro foi apenas baix-los para seu computador. Tempos depois, a prpria JSTOR acabou tirando o processo contra ele. 
     Apesar disso, dois procuradores federais americanos, Carmen Ortiz e Stephen Heymann resolveram prosseguir com o processo. Decidiram que Aaron deveria se tornar um exemplo, um bode expiatrio sujeito a grande punio. Para isso, usaram uma lei dos EUA aprovada no longnquo ano de 1984, o Computer Fraud and Abuse Act ("Lei de fraudes e abusos de computadores"), e agiram sem misericrdia para que ele fosse condenado a mais de 30 anos de priso. Alm disso, Carmen Ortiz queria concorrer ao governo do Estado de Massachusetts e foi acusada de usar o processo para ganhar visibilidade. 
     Ele morreu antes do julgamento, marcado para abril de 2013. A luta de Aaron contra a Justia dos EUA foi rdua. Sua namorada disse em depoimento pblico que ele no estava em depresso  Aaron a pediu em casamento dois meses antes de morrer. Na viso dela, sua morte  o resultado de uma enorme injustia, que colocou de um lado todo o poder do sistema judicirio dos EUA contra um garoto que se locomovia de bicicleta. Isso exauriu suas energias e recursos financeiros  a multa prevista era de at US$ 1 milho. Aaron era um patriota. Dedicou seu tempo e inteligncia para tentar melhorar as instituies democrticas de seu pas. Ver esse mesmo pas voltando-se contra ele foi alm do que ele conseguiu suportar. 
     Apesar da tragdia, o legado de Aaron sobrevive. Existe uma lei tramitando nos EUA com seu nome, que quer impedir que casos semelhantes se repitam. Quem se debruar sobre os textos que ele escreveu (e foram muitos) vai encontrar um pensador original e poderoso. Aaron no era s um programador. Era algum interessado em entender como a sociedade funciona. Os textos do seu blog, aaronsw.com, preservados online, trazem discusses sobre diversos temas, de cinema a moda, de poltica a programao. Ele lia cerca de cem livros por ano e fazia uma resenha de cada  a lista cobre assuntos diversos, como textos sobre economia de Keynes ou crnicas de Radical Chique, de Tom Wolfe. Quando esteve no Brasil em 2009 para participar do Frum Social Mundial, Aaron ficou hospedado na minha casa. Era um garoto que vivia conectado o tempo todo na internet, como tantos outros da sua idade. Tinha alergia a amendoim e qualquer tipo de castanhas. Ficou separando cuidadosamente as nozes  do quibe assado que foi servido no almoo no dia em que chegou ao Rio. Foi nessa ocasio que ele acabou me concedendo uma longa entrevista. Perguntei como uma criana podia ter feito tanta coisa, e qual era a diferena dele para outros garotos da mesma idade. Ele respondeu: "No acho que eu seja mais inteligente do que os outros. Com certeza no trabalho mais duro do que ningum. O que eu sempre tive foi curiosidade. Toda criana tem uma curiosidade enorme. A questo  que a escola a absorve, em vez de deixar as crianas a explorarem por conta prpria. Quem tenta fazer algo diferente acaba tendo problemas. A curiosidade de poucas pessoas sobrevive a isso". 
     No fim, a histria de Aaron  a histria de toda uma gerao. Uma que nasceu bem no momento em que o mundo estava aprendendo a se conectar em rede e que acredita que isso pode transform-lo em algo universalmente melhor. Graas a esse idealismo e inconformismo,  uma gerao que luta para encontrar seu lugar e para ser aceita, do seu jeito. A morte de Aaron  um evento grande e triste. E vamos sentir seus efeitos por muito tempo ainda. 

PARA SABER MAIS
As resenhas de Aaron Swartz
bit.Iy/kwoMp


3. CULTURA  BERLIM  A CIDADE MAIS LEGAL DO MUNDO
Duas guerras mundiais. Ascenso e queda do nazismo. Um muro divisor por quase 30 anos. Mesmo depois de tanta coisa, Berlim  hoje a capital criativa e cultural da Europa. Como isso foi possvel?
REPORTAGEM / Amanda Luz, de Berlim
Colagem / Mariana Coan, de Berlim
EDIO / Karin Hueck

     Em 1976, David Robert Jones decidiu deixar Los Angeles para morar em Berlim. Atrado pela cena musical em ebulio, o msico de 29 anos buscava uma nova carreira na cidade dividida por um muro. Nos trs anos em que morou por l, manteve uma vida noturna intensa, e se deixou influenciar por bandas alems como Kraftwerk e Neu!. O apartamento barato em que morava ficava no bairro de Schneberg, em um prdio que tinha sobrevivido s duas guerras mundiais. A rotina diria consistia em tomar cafs tardios com outros artistas e intelectuais e andar a p entre as lojas de antiguidades e livrarias. David Robert Jones na verdade  David Bowie. O msico se reinventou na capital alem e, graas a ela, lanou os lbuns da "Trilogia de Berlim": Low, Heroes e Lodger. "Berlim  o centro de tudo que est acontecendo e ir acontecer na Europa nos prximos anos", disse Bowie  revista Vogue na poca. Trinta e cinco anos e um muro posto abaixo depois, Bowie nunca teve tanta razo. Mais do que antes at, Berlim hoje  considerada um centro de atrao para artistas de todo o mundo, que se mudam para l por considerarem "Berlin, the place to be" (em ingls: "Berlim, o lugar para se estar"), como diz a campanha oficial de turismo da cidade desde 2009. 
     E a cidade no desaponta: oferece a infraestrutura que os moderninhos e descolados procuram. Prdios abandonados viraram apartamentos invadidos (e baratssimos), fbricas e bunkers inativos so espaos para galerias de arte ou festas, e h at um antigo aeroporto e uma torre de espionagem que servem de palco para festivais de msica. H mais de 420 galerias de arte  a maior concentrao da Europa  que dividem a ateno com os museus e os tours guiados de arte de rua. Alm disso, o crescente nmero de start-ups alems fez com que pipocassem espaos de coworking, onde profissionais de diversas reas dividem um mesmo escritrio e participam de projetos mtuos. Tanto incentivo j virou estatstica: de acordo com o ltimo relatrio oficial da prefeitura, 160 mil profissionais esto empregados na indstria criativa (msica, artes, cinema, TV, design, desenvolvimento de softwares etc), que produz 10% do PIB da cidade. 

COMO FAZER UMA CIDADE CRIATIVA 
     Berlim no  a primeira capital criativa do mundo. Paris, Nova York, Los Angeles e Florena tambm j foram locais de atrao para profissionais em busca de inspirao e contato com outros artistas. Assim como o Bowie em Berlim, Picasso criou o cubismo na Paris do incio do sculo passado e Mozart estabeleceu a carreira em Viena no sculo 18. Mas ser que a histria teria sido a mesma se eles no tivessem se beneficiado da atmosfera das capitais culturais que escolheram? 
     A resposta  provavelmente no. Artistas tendem a se reunir em agrupamentos para compartilhar ideias e se apoiar uns nos outros na produo artstica. Em um trabalho publicado no Jornal da Universidade de Oxford, os economistas Michael Storper e Anthony Venables chamaram esse burburinho de buzz  os processos que ocorrem ao mesmo tempo no mesmo lugar, e que acabam gerando mais informao, ideias e inspirao. Segundo Storper e Venables, para o buzz ocorrer,  preciso ter interao cara a cara, em um ambiente que envolva consumidores, crticos, turistas e criadores de polticas de incentivo. Coisas que existem em Berlim de sobra. Na prtica, essa interao pode acontecer at nos espaos de coworking. "As pessoas que chegam  cidade, principalmente as das reas criativas, precisam de espao com estrutura para o trabalho, com uma rede de contatos e uma vida social envolvida", conta o brasileiro Caque Tizzi, um dos fundadores do Agora, espao de coworking criado por dois brasileiros. Localizado no bairro hip de Neuklln, eles recebem at 70 profissionais por dia, de artistas residentes a freelancers e programadores. 
     Para o economista Ake Andersson, em Handbook of Creative Cities ("Guia das cidades criativas", sem traduo), algumas condies preparam o terreno para a inventividade humana desde a Grcia Antiga. Por exemplo, cidades culturais sempre foram associadas a grandes fluxos de imigrao e comrcio. Foi o caso de Veneza no Renascimento e de Paris no sculo 20. Berlim recebe imigrantes h sculos tambm: judeus desde 1671, protestantes franceses, os huguenotes, desde 1677  e, j no sculo 17, as leis de imigrao foram afrouxadas para que a cidade pudesse receber fugitivos religiosos e minorias tnicas. 
     Estar em uma cidade criativa tambm tem seus benefcios para a conta bancria. Um estudo feito por Christiane Hellmanzik, economista da Universidade de Hamburgo, analisou os dados da produo de arte moderna em Paris e Nova York no sculo 20 e apontou que os artistas dessas reas no somente comearam a criar mais cedo do que os outros, como suas obras tambm so as mais valiosas em leiles. Ou seja, a origem e a data de criao da obra valem como um selo de "boa safra" de produo. Mas quais foram os eventos na histria de Berlim que a tornaram uma cidade criativa? 

UMA CAPITAL-INSTALAO 
     Berlim tem 775 anos vividos bem no meio de reviravoltas histricas. Apenas no sculo 20, a cidade comeou como capital da Prssia para depois sobreviver a: duas guerras mundiais, duas unificaes, ascenso e queda do nazismo, e construo e queda de um muro divisor por quase 30 anos. "Paris  sempre Paris, enquanto Berlim nunca  Berlim", disse o poltico francs Jack Lang, j nos anos 2000. H quem diga que, na comparao, as vizinhas Paris, Londres e Roma so cidades-museu enquanto Berlim  uma cidade-instalao-artstica. Depois da Segunda Guerra, a capital em runas precisou reconstruir no s sua estrutura fsica, mas tambm sua identidade. Seiscentos mil apartamentos foram destrudos pelos bombardeios e apenas 2,8 milhes das 4,3 milhes de pessoas que originalmente viviam l permaneceram. 
     A linha do tempo para entender como Berlim chegou a polo artstico comea nos anos 20, quando a cidade foi construda para ser o centro poltico e financeiro do pas. "A infraestrutura foi planejada para atender de 4 a 5 milhes de habitantes, mas, com a Segunda Guerra Mundial e o muro, o que aconteceu foi uma drstica diminuio da populao", diz Nikolaus Wolf, professor de Histria Econmica da Universidade de Humboldt, em Berlim. Mesmo depois da reunificao, a populao est longe de atingir os nmeros de antes. Hoje a capital alem tem 3,5 milhes de habitantes, o que deixa boa parte de sua estrutura vazia. 
     Quando o muro foi construdo, circulando a parte capitalista da cidade bem no meio do territrio comunista, a fuga de gente e capital se consolidou. "As empresas, pequenas e grandes, se mudaram em massa para outras regies da Alemanha com medo de expropriao. Os bancos transferiram as sedes, seguradoras como Allianz e at a Siemens, que sozinha empregava mais de 50 mil pessoas na cidade, saram de Berlim", conta Wolf. Para resolver o problema, a Alemanha Ocidental comeou a oferecer subsdios para quem se mudasse para a poro capitalista de Berlim, desde investimentos para novos negcios a liberao do servio militar obrigatrio. Mas no foi o suficiente para reverter a situao. 
     Depois que o muro caiu, em 1989, o boom econmico esperado com a reunificao da cidade no veio, j que as empresas no precisavam mais voltar suas sedes para Berlim por causa da era da computao. A cidade continuava oferecendo uma estrutura maior do que a populao precisava e os artistas j tinham chegado. O resultado: aluguis extremamente baratos em comparao com outras capitais europeias e prdios abandonados para serem ocupados para moradia, trabalho e instalaes artsticas. De fato, hoje em dia, 85% da populao mora em propriedades alugadas. O valor mensal para um apartamento de 100 m2  de  796, enquanto que em Londres   1250, e em Paris chega a  2462. 
     "Eram muitos prdios vazios sem dono, uma nova cidade com bairros a serem explorados, e as possibilidades eram muitas. As pessoas simplesmente iam de um evento a outro, gastando 10 marcos alemes [ 5] por noite", conta o cineasta alemo Lucian Busse. No ano passado, ele lanou o documentrio Berlinized: Sexy an Eis ("Berlinizado: Sexy no gelo") mostrando como era o esprito hedonista depois da queda do muro, e que moldou boa parte da imagem da cidade de hoje. Foi nessa poca que surgiu o prdio ocupado mais famoso da cidade, o Kunsthaus Tacheles, formado por artistas que tomaram uma antiga loja de departamentos bombardeada e a transformaram em um centro de arte com exposies, estdios, balada e cinema. O espao foi fechado em meados de 2012 aps anos de disputas legais. Era o sinal dos novos tempos.  

QUAL A PRXIMA PARADA? 
     Uma capital cosmopolita com aluguis baratos parece um paraso, mas a realidade anda mudando nos ltimos tempos. O valor mdio do aluguel em Berlim subiu 8% no ltimo ano e 26% nos ltimos cinco anos, segundo a companhia imobiliria berlinense ImmobilienScout24. Ser que o prefeito Klaus Wowereit, quando disse que "Berlim  pobre, mas sexy", em 2004, preveria a possibilidade de a cidade ficar sexy demais? Cartazes pela cidade reclamam do "enobrecimento" de bairros tradicionalmente proletrios, como Neuklln, que foram tomados por famlias, turistas e yuppies endinheirados, principalmente do sul da Alemanha e de outros pases europeus. E a revista alem Der Spiegel j anunciou em manchete de outubro passado: "De pobre e sexy, para rica e inacessvel", culpando a especulao imobiliria pelo encarecimento dos aluguis da cidade. 
     Os moradores podem reclamar das invases nos seus Kiez (vizinhanas menores, dentro dos bairros, com comrcio local e caractersticas prprias), mas  possvel que a cidade no escape do ciclo inevitvel de desenvolvimento de uma grande metrpole, como aconteceu em Londres e Paris. A boa notcia  que o medo de que a festa tenha acabado no  indito. "Quando o muro caiu, a gente pensou 'o paraso acabou, os aluguis vo subir'. E foi surpreendente ver depois que ainda havia tantas possibilidades", diz Busse. Para ele, boa parte do potencial artstico hoje vem de pessoas que ainda esto chegando de outros lugares. "Isso  o que, em uma maior amplitude, sempre aconteceu em Berlim." De fato, para uma cidade que sobreviveu a Hitler, ao nazismo e a um muro divisor, os desafios do futuro parecem fichinha. 

"Berlim foi paixo  primeira vista. Ela segue uma direo distinta das cidades europeias, que congelaram no tempo e viraram butiques de si mesmas. D para perceber que Berlim  uma cidade que j passou por tudo e que agora tenta apontar para um novo caminho." KARIM AINOUZ, DIRETOR DE O CU DE SUELY E MADAME SAT. ELE DIVIDE SEU TEMPO ENTRE BERLIM E O BRASIL. 

"Resolvi fazer o caminho inverso dos meus familiares: eles saram do Berlim para morar no Brasil no sculo 19-6 eu vim para c. Gosto da cidade porque ela  eufrica. Para mim, Berlim  a histria viva do sculo 20, e reflete todos os lados bons e todas as contradies." ALEX FLEMMING ARTISTA PLSTICO BRASILEIRO RADICADO EM BERLIM.

MAPA DA CRIATIVIDADE
Houve uma poca no muito distante em que Berlim no tinha um centro, tinha dois. Um prximo ao zoolgico, na parte ocidental, e outro em Stadtmitte, na poro oriental. Essa que prevaleceu e  hoje lar dos criativos.

1- KREUZBERG
 o mais boimo de Berlim. O mix do imigrantes turcos, estudantes, proletrios, punks e artistas fazia parte do charme local, mas a rea no fugiu  invaso dos turistas nos ltimos anos. Ao redor da Oranionstrabe est o corao da vida noturna local, mas o bairro ainda inclui atraes como o Badeschiff, uma piscina pblica flutuante no rio Spree, e as tradicionais feirinhas de comrcio turco.

2- NEUKLLN
De perifrico a bip, a tradicional vizinhana de imigrantes e proletrios muda a toda hora. Os estudantes e artistas que queriam fugir dos aluguis caros em Kreuzberg atravessaram o canal em direo a Neuklln. Os cafs, bares e galerias de arte redor da rua Weserstrabe no esto nem nas fotos do Google Street View tiradas em 2008. As lojas de antiguidades dividem espao com restaurantes de culinria paleoltica, mercadinhos de comida orgnica e cafs com brunch.

3- SCHNEBERG
Alm do endereo de David Bowie, foi tambm a vizinhana do escritor Christopher Isherwood, do fsico Albert Linstein, do cineasta Billy Wilder e onde nasceu Marlene Dietrich. Estudantes procuram pelos aluguis mais acessveis em comparao com Kreuzberg e a regio da Nollendorfplatz  rea gay desde os anos 1920.

4- MITTE
Quem manda aqui  a chanceler Angela Merkel e as ltimas tendncias da moda. Prdios do governo e museus dividem espao com cafs e galerias. Por muitos anos, Mitte foi o endereo do squat mais famoso da cidade, o Kunsthaus Tacheles.

5- PRENZLAUER BERG
Depois do muro, atraiu muitos jovens e artistas, com os aluguis baratos e apartamentos vazios. O resultado so muitos bares, restaurantes, cafs e lojas. Nos ltimos anos, o aumento dos aluguis causou uma mudana no perfil dos moradores: de jovens estudantes para jovens famlias yuppies (e muitos bebs).

6- FRIEDRICHSHAIN
Tambm foi tomado por artistas e estudantes aps a reunificao. Algumas das baladas mais famosas da cidade tambm ficam nessa regio, como a Berghain, localizada numa antiga usina eltrica.

BERLIM ABANDONADA
Desde a queda do muro, os prdios abandonados so parte do cenrio da cidade e formam um novo tipo de turismo e aproveitamento urbano.

PRINZESSINNENGRTER
Num espao vazio que ficava entre os muros em Kreuzberg, o grupo de ativistas Nomadisch Grn criou uma horta coletiva com alimentos orgnicos cultivados por locais.  No meio dos prdios,  possvel ajudar na horta e comprar verduras e frutas.

AEROPORTO TEMPELHOF
Smbolo da era nazista, o aeroporto foi desativado em 2008 e transformado em parque pblico, dois anos depois.  O prdio principal  aberto para visitao apenas em tours guiados, j a rea externa ao redor  livre para a prtica de esportes nas antigas pistas para avies.  comum ver grupos com churrasqueiras portteis na grama.

STATTBAD WEDDING
No precisa levar os culos de natao para essa piscina pblica  ela est vazia. Foi construda no incio do sculo 20 e transformada em espao para exposies de arte urbana e festas.

TEFELSBERG
Uma torre de espionagem da inteligncia americana localizada no topo de uma colina artificial, formada por destroos da artilharia nazista e escombros da Segunda Guerra. Teufelsberg foi privatizada, mas os projetos de reaproveitamento no saram do papel. Hoje,  visitada por aventureiros que pulam a cerca de proteo e escalam o prdio.

SPREEPARK
O parque de diverses da Berlim Oriental no sobreviveu ao capitalismo. Privatizado, o projeto de reabertura no saiu do papel e hoje tenta espantar os jovens que pulam a cerca para uma visita clandestina. Tours guiados e pagos foram abertos em datas espordicas para diminuir as invases.


4. ZOOM  P E PEDRA
Gros de areia ajudam a explicar o mundo. Ampliados centenas de vezes, eles se revelam objetos inusitados.
EDIO / Felipe van Deursen

	O planeta Krypton estava condenado.  Era um cncer a ser extirpado do universo. Literalmente. Pelo menos nos bastidores de Superman.  Isso porque o planeta que vemos na tela, no incio do filme de 1978, , na verdade, uma clula cancerosa de pncreas. Magia do cinema. Esse foi um dos primeiros trabalhos de Gary Greenberg, biomdico especializado em fotografia microscpica.  Nas ltimas dcadas, ele inventou e construiu seus prprios microscpios 3D. E desenvolveu um gosto especial por frutas, flores e, principalmente, gros de areia. Eles podem ser o extrato de milhes de anos de atividade geolgica ou apenas o sinal da presena de uma antiga fbrica. Greenberg, que vive no Hava, fotografou gros, amostras de poeira, pedras e minsculos esqueletos coletados em diversas praias e terrenos ao redor do mundo  at mesmo da Lua.

MEGAZOOM
Mau, Hava
Quem caminha pela praia de Makena, em Mau, no Hava, v a areia mais ou menos como na imagem do canto. Difcil imaginar que, ampliados 50 vezes, alguns gros se parecem com um microscpico melo.

ESQUELETO
Mau, Hava
A esponja-de-vidro  uma espcie de esponja que habita profundidades de at 900 m. Ela tem uma caracterstica estrutura interna formada por espculas, pequenos espinhos de slica que podem ter o formato de um l, um X ou um Y  como esse no centro da foto. O resto so fragmentos de conchas.

COISA DE VIDEOGAME
Okinawa, Japo
A estrela fofinha poderia estar no cenrio de algum Mario Bros. Mas  o esqueleto de um foraminfero, organismo unicelular que a indstria petrolfera usa na datao de sedimentos e na localizao de novos poos submarinos.

BELEZA INDUSTRIAL
Ostende, Blgica
Cristais de quartzo ampliados ficam assim, como sal grosso. O alien azul e preto no centro  uma escria, ou seja, um resduo produzido pela fundio de metais. O material tem diversos usos comerciais, desde a produo de cimento  de fertilizantes.

VULCNICA
Mau, Hava
O vulco Haleakala, no Hava, h cerca de 360 anos sem entrar em erupo, produziu esse gro de areia rubro-negro. "A diferena entre usar o microscpio para a arte e no para a cincia  que na arte h a sensao de liberdade, como se estivesse fazendo mergulho no mar", diz Greenberg.

E.T.
Mar da Tranquilidade, Lua
A Lua no tem atmosfera para frear o contnuo bombardeio de meteoritos e micrometeoritos. Em decorrncia disso, uma fina camada de poeira cobre sua superfcie. Em 1969, a Apollo 11 coletou amostras desse p. Eis aqui uma partcula dele.

PARA SABER MAIS
sandgrains.com


5. SADE  REMDIO DE NDIO
Alguns dos medicamentos mais populares do mundo devem muito ao conhecimento indgena sobre a natureza. De lombriga a malria, a floresta ajudou a dar a cura.
REPORTAGEM / Carol castro
EDIO / Felipe van Deursen

     Era comum morrer de malria na Europa do sculo 14. Ningum sabia como curar esse mal sbito caracterizado por febre alta, calafrios, dores no corpo e na cabea  tudo acompanhado por um cansao extremo. Incapazes de encontrar uma soluo para a doena, a que mais matou na histria da humanidade, os europeus a levaram s novas terras do outro lado do Atlntico. A malria veio a bordo dos navios negreiros, segundo uma recente e extensa pesquisa. E nunca mais saiu do continente. No entanto, os europeus no esperavam encontrar nos ndios a primeira arma minimamente til contra o mal. Na Amrica do Sul, os ndios j usavam extrato da casca de cinchona para combater os sintomas. Funcionava. A ponto de jesutas levarem mudas da planta  Europa. E depois, no sculo 18, dois qumicos franceses, Joseph Pelletier e Joseph Caventou, isolaram a quinina, presente na cinchona. O feito proporcionou a popularizao do remdio indgena e, de quebra, a inveno da gua tnica, refrigerante de quinino, derivado da quinina. 
     Outros conhecimentos dos ndios tambm viraram medicamentos de farmcia  e eles fazem parte, ainda hoje, da sua caixa de remdios. Mas antes  preciso saber que doena, para ndio,  algo diferente. No se cura apenas com remdio. Exige um ritual completo, com rezas e cantos. Qualquer problema de sade envolve corpo, esprito e mente. A causa da malria, como a cincia moderna descobriria mais tarde, no se resumia  picada do mosquito Anopheles contaminado com o protozorio Plasmodium. Para eles,  um problema espiritual, uma praga jogada por um inimigo ou por espritos da natureza que foram desrespeitados. S uma negociao bem-sucedida entre o curandeiro ( base ou no de alucingenos) e o esprito causador da doena pode salvar o paciente. "Existe uma trade dentro do processo de cura xamnico: o poder da pessoa que conhece as palavras encantadas, as palavras em si, e a planta, que viabiliza a penetrao daquela palavra", explica Renato Athias, professor de antropologia na Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador da medicina tradicional na regio do rio Negro. Eles aprenderam o que  bom ou no com base em sculos de observao atenciosa do circo da natureza em ao. E por meio de testes empricos. 

O SEGREDO DOS NDIOS 
     Em uma briga entre lagarto e jararaca, a cobra leva a melhor. A picada dela o deixa fraco, perto da morte. Mas ele  esperto: foge da briga e corre atrs de remdio. Mastiga umas folhas e dias depois fica forte novamente. O ndio, na espreita, acompanha todo aquele processo. Se algum for picado por uma jararaca, ele corre em busca daquela mesma planta mastigada pelo lagarto. Primeiro, testa o remdio. Se der certo, a planta entra na lista de medicaes daquela aldeia. Foi assim que, ao verem animais machucados roando em uma rvore, os ndios descobriram o poder cicatrizante do leo de uma rvore chamada copaba, por exemplo. 
     O acmulo de conhecimento se d ao prestar ateno nas semelhanas entre formatos e cores das plantas e as doenas que elas combatem. Por exemplo, a madeira amarela de um tipo de abtua, uma trepadeira, e a seiva amarelada da caopi, rvore tambm chamada de pau-de-lacre, so usadas para curar doenas no fgado. Em casos de tosse com sangue, comem Boletus sanguineus, um tipo de cogumelo vermelho. J a raiz em formato de serpente da parreira-brava serve para curar mordida de cobra. E se for picada daquela jararaca, d para se livrar do veneno com o sumo da planta Dracontium polyphyllum  as cores do caule lembram a pele da cobra. Os ndios repararam em outros detalhes, como no ltex que sai da casca de algumas rvores. Exposto ao ar, o lquido parecia um verme. Logo, aquele podia ser um bom remdio para lombriga. "As formas indgenas de classificar remdios naturais so sofisticadas", diz Maria Luiza Garnela, mdica e antroploga da Fundao Oswaldo Cruz na Amaznia. "Envolvem cheiros, identificao de resinas e semelhanas e diferenas entre plantas". 
     Claro que nem toda semelhana dava certo. Esther Jean Langdon, professora de antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina e especialista em sade indgena, diz que era assim que se aprendia. "Eles observam o que funciona. Fazem essa comparao com a natureza, mas testam para saber se d certo", explica. " nesse sentido que eles tm uma cincia, no com experimentos em laboratrios, mas na vida". A enfermeira Patrcia Rech, professora de sade indgena na Universidade Federal de So Paulo, viveu no Parque do Xingu, em Mato Grosso, por cinco anos. Ela presenciou um exemplo disso. Certa vez, acompanhou um parto problemtico. A placenta no saa, seria preciso aumentar as contraes. Mas no havia nenhum medicamento, e a farmcia mais prxima ficava a horas de distncia. Assim que souberam do problema, as mulheres da aldeia correram mata adentro. Voltaram com um punhado de plantas nas mos. Amassaram as folhas e deram o sumo para a paciente. Em meia hora, a placenta, enfim, saiu. Sem a ajuda de nada mais. Outra histria aconteceu com Maximiliano Menezes, do povo tukano, da regio do rio Negro, no Amazonas. Ele levou o cunhado, picado por uma cobra, s pressas para um posto de sade. Com a perna inchada e roxa at a altura do joelho, os mdicos deram o veredito: seria transferido para Manaus e teria de fazer uma cirurgia de amputao. Um parente contou a Maximiliano sobre a eficcia de um tipo de cip rasteiro para picadas. Ele extraiu o sumo da planta e passou no p do cunhado. "Era para o mdico autorizar a ida para Manaus na manh seguinte. Mas o p desinchou. O mdico ficou surpreso. Era para amputar, mas ele melhorou", lembra Maximiliano. Em trs dias, o cunhado recebeu alta. Saiu caminhando. 

NA SUA GAVETA. E ALM 
     Olhar para a cincia indgena pode ser o caminho mais curto para a produo de novos medicamentos. "Quando se parte de um conhecimento tradicional, usualmente, encurta-se pela metade o tempo necessrio para fabricar um novo remdio", diz o mdico Clayton Coelho, que atua no projeto Xingu, da Unifesp. Uma pesquisa da Universidade da Paraba analisou 23 especiarias usadas popularmente como remdios antimicrobianos. Depois de avaliar os efeitos, 40% das plantas tiveram suas propriedades comprovadas. Isso porque nenhum conhecimento surge do nada, sem qualquer embasamento. 
 por isso que os cientistas no descartam medicamentos indgenas. E no estamos falando de tratamentos fitoterpicos, que esto no balaio dos tratamentos alternativos. Megahits das farmcias e blockbusters das receitas mdicas tm herana popular.  o caso da aspirina, que saiu da casca do salgueiro. Na Europa, o mdico Hipcrates j receitava o ch com a casca e folhas da rvore para amenizar febres e dores de cabea. Os ndios americanos a utilizavam para o mesmo fim (e para muito mais: reumatismo, calafrios e dores musculares). Para transformar salgueiro em aspirina, a cincia isolou o cido saliclico, aprendeu a sintetiz-lo e transformou a droga no analgsico mais popular do mundo. Outro exemplo   a toxina d-tubocurarina, extrada do curare, veneno que os ndios colocam na ponta das flechas para imobilizar caas. Ela virou relaxante muscular, usado por anestesistas durante cirurgias, principalmente para controlar convulses. J o jaborandi, rvore tpica das regies Norte e Nordeste, oferece os colrios de policarpina, que os ndios usam h sculos para estimular a produo de suor. Por muito tempo, os mdicos brasileiros (e alguns europeus) indicaram o remdio com o mesmo objetivo. Mais tarde, a cincia descobriu um efeito mais poderoso da policarpina: ela tambm funciona no tratamento de glaucoma. J remdios qumicos que tratam arritmia e insuficincia cardaca devem sua vida a uma planta ornamental de flores em forma de sininhos, a dedaleira. O ch dessa planta era feito pelos ndios nativos dos Estados Unidos para um distrbio na circulao do sangue que causa insuficincia do corao. 
     A lista  longa e se estende a outros continentes. Pesquisadores da Universidade do Sul da Califrnia tentam aproveitar os conhecimentos das parteiras africanas. Elas usam o ch de uma erva de flores violetas, a Oldenlandia affinis, para aumentar as contraes uterinas. E d certo. No  toa, os cientistas estudam modos de viabilizar a produo de remdios com kalata B1, composto proteico da planta. 
     O prximo passo  encontrar na natureza possibilidades de cura para nada menos que o cncer. Pesquisadores da Unicamp isolaram e sintetizaram componentes do leo da copaba, aquela dos poderes cicatrizantes citada no comeo da reportagem. Deixaram os compostos em contato com clulas cancergenas de vrios tipos (ovrio, prstata, rins, clon, pulmo, mama, melanoma e leucemia). "Mostrou potencial como anticancergeno", diz o qumico Paulo Imamura, orientador da pesquisa. Infelizmente, a ideia no saiu do papel, por falta de tempo e dinheiro. "Seria necessria uma longa pesquisa sobre como preparar em grande escala", completa. Nos EUA, outros pesquisadores estudam a eficcia do melo-de-so-caetano, muito usado contra doenas de pele. Apesar do nome, trata-se de um cip. E agora, com testes em ratos, o estudo comprovou que o extrato da planta realmente ajuda a reduzir sinais de tumor. No se trata de uma via de mo nica. H  e sempre houve  intercmbio de informaes, mesmo que desfavorvel  cultura indgena. ndios pernambucanos fazem, hoje, ritual de cura com aspirina na lista de remdios. Prticas tradicionais perdem espao para a medicina moderna. Mas elas se adaptam. Como em Santa Catarina, onde o povo kaingng, de Xapec, rebatizou uma espcie de artemsia que tem efeitos antifebris. Deram a ela o nome de novalgina. 

DA MATA  FARMCIA
Mtodos de cura tradicionais dos ndios que viraram remdio.

IPECACUANHA
O que : Planta comum na Bahia e em Mato Grosso.
Princpio ativo: Emetina
Uso dos ndios: Bronquite, disenteria e induo de vmito.
Na farmcia: Remdios contra tosse e xaropes para induo de vmito.

JABORANDI
O que:  Arbusto tpico em regies subtropicais.
Princpio ativo: Policarpina
Uso dos ndios: Estimular a produo de suor.
Na farmcia: Curar glaucomas.

SALGUEIRO
O que : rvore de climas temperado e frio.
Princpio ativo: cido saliclico
Uso dos ndios: Mal-estar, febre, reumatismo.
Na farmcia: Mal-estar, febre.

DEDALEIRA
O que : Planta ornamental.
Principio ativo: Digoxina
Uso dos ndios: Distrbio na circulao do sangue que causa insuficincia cardaca.
Na farmcia: Arritmia e insuficincia cardaca.

CINCHONA
O que : Arbusto comum na Amrica do Sul.
Princpio ativo: Quinina
Uso dos ndios: Antitrmico
Na farmcia: Febre malrica

PARA SABER MAIS
Medicina Tradicional Indgena em Contextos
Vrios autores, Funasa, 2007.


6. ATUALIDADES  O ANTI-HERI DO ANTIVRUS
Como John McAfee, um dos maiores nomes da histria da internet, meteu-se em uma trama envolvendo drogas, mortes e prostitutas no meio do Caribe.
REPORTAGEM / Pieter Zalis 
EDIO / Felipe van Deursen 

Este  JOHN MCAFEE.  Sua vida nunca foi fcil. Filho de um pai bbado e violento, ele sempre teve problemas com lcool, maconha, LSD etc. Em 1983, aos 37, viciado em cocana, chegou ao fundo do poo. Perdeu tudo.
Mas ele se superou. Aps quatro anos sbrio, leu no jornal sobre o Brain, primeiro vrus de computador do mundo. Havia cheiro de oportunidade no ar.
Ele criou o antivrus McAFEE. E fez um marketing agressivo ao lanar um livro alarmista sobre os perigos que computadores corriam.
Deu certo! Apesar de ser gratuito, muitas empresas comearam a encomendar a verso paga  do antivrus. Com essa estratgia. Em seis meses sua empresa cresceu 50 vezes. S em 1990, McAFEE ganhou US$ 5 milhes.
Em 1994, multimilionrio, ele vendeu a empresa e passou a se dedicar a outras coisas.
S sobre yoga, escreveu cinco livros. E, em 2002, inventou um esporte: uma espcie de asa delta com motor e rodas que ele batizou de aerotrekking.
Tudo is bem, mas em 2007, um instrutor e um aluno morreram em um acidente, minando a crescente popularidade do esporte.
Para piorar, a crise nos EUA em 2008 sugou boa parte de seu patrimnio. Quase tudo, segundo ele. Sua fortuna de US$ 100 milhes minguou para meros US$ 4 milhes.
Alm disso, ele estava sendo processado por conta do acidente de aerotrekking. Sua permanncia nos EUA se tornou invivel.
McAFEE, j na casa dos 60, decidiu buscar um lugar barato e tranquilo para viver. Era hora de mudar.
Assim, em abril de 2008, ele chegou ao paraso: Belize.
Mas a vida no Caribe no seria to ensolarada.
Sua nova moradia ficava na ilha de Ambergris, no mar do caribe.
L, levou uma vida normal at 2010. E voltou a ser um empreendedor.
Abriu um servio de lancha-taxi, uma fbrica de charutos e uma distribuidora de caf. E voltou a praticar aerotrekking.
At  filantropia ele se dedicou...
Em fevereiro de 2010, comeou a explorar o interior.
Construiu uma casa na vila de Orange Walk onde montou um laboratrio para desenvolver um antibitico natural a partir de uma planta cultivada no local.
Mas talvez esses antibiticos no tenham sido a nica coisa produzida no laboratrio...
McAFEE chegou a postar num frum sobre drogas suas loucas experincias com uma substncia chamada de sais de banho.
E a, comeou a tocar o terror. Ia aos bares mais sujos do submundo.
Envolveu-se com prostitutas que foram abusadas na infncia, vtimas da pobreza e da violncia. E acabou namorando muitas delas. 
Sam, Amy, Timesha e Marcia, entre outras namoradas, mudaram-se para Orange Walk.
McAFEE queria ajudar Carmelita, o vilarejo de onde vinham algumas de suas garotas. Ele se envolveu. At demais.
Achava que era um xerife. Construiu uma delegacia, contratou policiais, reformou escolas, doou alimentos e dinheiro.
E ento,  claro, olhos suspeitos e perigosos do vilarejo comearam a acompanha-lo.
Criminosos e polticos locais no gostaram de ver um gringo rico agindo como se fosse dono do pedao.
Paranoico, ele criou um exrcito prprio, que reunia policiais em horrios de folga e ex-detentos.
Ele achou necessrio se defender. Andava sempre armado com revlver Smith & Wesson, 38.
Seu estilo de vida finalmente chamou a ateno da polcia.
30 de abril de 2012. A unidade de combate a gangues de Belize invadiu a casa de Orange Walk, sob a suspeita de ser um laboratrio de metanfetamina. No havia provas no local.
Mas havia armas sem porte legal e seguranas sem licena para trabalhar, O sufuciente para McAFEE passar uma noite na priso. O lugar fedia tanto que tinha um apelido: Mijdromo.
O caso parou na TV, e envolveu o governo.
Mas Belize no quis saber de pedir desculpas. Ele tinha um esquadro que intimidava as pessoas, para no dizer ameaava.
John McAFEE achava que sua vida estava em risco e que ele era vtima de um compl de policiais e polticos corruptos Era hora de revanche.
O plano: invadir arquivos secretos de Belize com 75 computadores grampeados.
Para isso, ele infiltrou seis homens e 23 mulheres, que viraram amantes de autoridades e introduziram as mquinas nos prdios do governo.
Alm disso, eles instalaram cmeras e gravadores em objetos como canetas, culos e iPod.
Ele ainda diz ter subornado duas companhia telefnicas de Belize para grampear telefones. Tudo para obter informaes e senhas sigilosas.
E o que eles encontraram? 
MacAFEE afirmou ter provas de corrupo contra o governo. Pior: Belize havia se tornado porta de entrada nos Estados Unidos para pessoas ligadas  organizao libanesa Hezbollah.
Uma ex-vizinha testemunhou: As coisas ficaram piores depois da incurso de Abril, diz Tamara Sniffin. MacAFEE realmente achava que o governo estava atrs dele.
O primeiro-ministro Dean Barrow disse que a operao nunca aconteceu e ironizou o fato na imprensa local: No quero ser indelicado, mal ele parece ser paranoico  Eu diria maluco.
McAFEE deixou sua casa no interior para voltar a Ambergris. Junto com ele, as vrias namoradas e os capangas.
Sua bela propriedade caribenha, ento se transformou num cenrio de guerra.
Ele se trancou em se novo Bunker, cercada pela milcia armada e 11 ces bravos. Os vizinhos no gostaram.
O desconforto chegou ao ponto de um deles, Gregory Faull, prestar queixa formal na prefeitura. , eles no tinham boas relaes.
Tamara, a outra vizinha, lembra  sem saudades. Os seguranas armados de McAFFE paravam pessoas de noite para fazer perguntas. Os vizinhos estavam assustados!
9 de novembro de 2012.
O segurana William Muligan encontrou quatro ces mortos. Provavelmente envenenados.
O principal suspeito era um homem com as caractersticas de Faull, que teria sido visto rondando a propriedade.
O Americano Gregory Faull fez fortuna no ramo da construo. Ao se aposentar, trocou a Flrida por Belize. Na rua, era visto ora se dedicando a pssaros, sua paixo, ora bebendo horrores.
Irritava-se com os constantes latidos dos ces raivosos. E j havia ameaado mata-los.
Dois dias depois, antes que pudesse ser procurado pela polcia, Faull apareceu morto na sua casa com uma bala na cabea.
O segurana de McAFEE foi preso aps ser pego pela polcia com armas sem licena.
Eles me foraram a dizer algo sobre o assassinato. Mas no sabia de nada!  William - Mulligam chief of security.
No mesmo dia a polcia foi atrs de McAFEE para fazer algumas perguntas sobre seu vizinho. Mas ele j no estava em casa.
Holy shit! Eles querem mesmo me apagar! Preciso dar o fora daqui o mais rpido possvel!
Segundo McAFEE, ao ver os policiais se aproximando mais uma vez de sua casa, ele temeu por sua vida.
No se sabe ao certo se com medo do governo de Belize ou dos perigosos terroristas do Hezbollah,,, Ele decidiu mudar-se mais uma vez de pas. Mas, dessa vez, fugido e perseguido por autoridades.
McAFEE planejou fugir ao lado de uma namorada, Sam, e dois jornalistas que o acompanhavam. Vamos para a Guatemala!
Outra ex-namorada, Amy, tambm o ajudaria a cruzar a fronteira ao sul.
Ao mesmo tempo, espalhou pistas falsas de que rumava ao Mxico.
McAFEE pintou os cabelos e a barba de preto para no ser reconhecido.
Perambulou por moquifos dormindo em camas infestadas de piolhos.
Divulgou na internet que estava detido em outra fronteira, com o Mxico. Era um golpe para desviar a ateno. Assim, as estradas rumo  Guatemala ficariam aliviadas, com os olhos voltados ao norte.
Alm disso, escolheu fugir em um dia de temporal. Ora, nenhum policial de Belize faz blitz em dias de chuva.
Na fronteira, ele pegou um barco para Livingston, Guatemala. No houve qualquer fiscalizao.
Mesmo assim, o plano no deu 100% certo. Os jornalistas postaram uma foto no Facebook com McAFEE. No demorou para a Geolocalizao do celular apontar seu paradeiro.
5 de dezembro de 2012.
Dois dias depois de ter sua foto publicada na rede, John McAFEE foi preso  na cidade da Guatemala por entrar ilegalmente no pas.
Na priso, ele forjou um ataque cardaco para ir ao hospital e dar tempo a seu advogado para preparar a defesa.
Sua estratgia era pedir asilo poltico na Guatemala, pois sentia-se ameaado pelo governo supostamente corrupto de Belize.
Mas o pedido foi negado.
12 de dezembro de 2012.
Como no havia queixa formal de Belize, seu nico crime foi ter entrado ilegalmente na Guatemala. A soluo foi envi-lo de volta para os EUA, seu pas de origem.
McAFEE vive hoje em Portland. Diz sentir-se seguro. L, os terroristas do Hezbollah no o atacaro.
Resta saber se Portald est segura com McAFEE.
Porque at hoje ningum inventou um antivrus para impedi-lo de criar confuso.

Os fatos, falas e cenrios descritos foram feitos com base em entrevistas com os personagens   super ou a veculos internacionais. H tambm muitas informaes no blog pessoal de McAFEE, onde ele no cansa de brigar com Belize. O Blog divulga at hoje crticas ao governo do pas. E a histria vai virar filme. "A superfcie de suas aventuras mal foi riscada. Ainda h muito a contar", diz o produtor Michael Moscar.
Sobre a morte de Faull, McAFEE oferece US$ 75 mil por informaes que levem ao paradeiro dos assassinos. Ele tambm diz, hoje, que duvida que Faull tenha envenenado seus cachorros. Na verdade, o responsvel seria o governo de Belize.

PARA SABER MAIS
whoismcafee.com


7. TECNOLOGIA  A PEDRA DE R$ 5 TRILHES
5143 HERACLES
Dimetro 3,6 a 4,2 km
Distncia da Terra 8,6 milhes de km

Isto  um asteroide. Ele est cheio de metais raros, que valem um dinheiro absurdo: mais do que toda a riqueza que o Brasil inteiro produz em um ano. Duas empresas dizem que  possvel ir busc-lo  e j esto se preparando para fazer isso. Conhea os bastidores da corrida do ouro espacial.
REPORTAGEM / Salvador Nogueira 
EDIO / Bruno Garattoni

     O mundo vive sua pior crise econmica desde a dcada de 1930. Mas um pequeno grupo de empresrios diz que tem a resposta para acabar com ela e inaugurar a fase mais prspera da histria da humanidade. Como? Fazendo uma nova corrida do ouro, como as que aconteceram no Velho Oeste americano e no garimpo brasileiro de Serra Pelada  s que, desta vez, no espao. Isso porque os asteroides, que s costumam ser assunto quando passam perto da Terra (ou quando fragmentos deles caem aqui, como aconteceu na Rssia em fevereiro, deixando centenas de feridos), so uma enorme fonte de riquezas. Contm quantidades enormes de ouro, platina e outros metais preciosos. "Todos os recursos naturais que voc puder imaginar, energia, metais, minerais e gua, existem em quantidades praticamente infinitas no espao", diz Peter Diamandis, fundador da empresa Planetary Resources, a primeira a entrar na nova corrida do ouro. 
     Diamandis no  um sujeito qualquer. Ele  o criador do X Prize, competio que d US$ 10 milhes de prmio a quem conseguir realizar determinado feito tecnolgico (como mandar um rob at  Lua ou criar uma mquina capaz de ler DNA em alta velocidade, por exemplo). A maior proeza do X Prize at agora foi o desenvolvimento da primeira nave espacial privada, que est sendo preparada para viagens tursticas. Mas, se o conceito de turismo espacial  fcil de entender, a minerao espacial j parece ser fico cientfica demais para ser levada a srio. No   toa que o principal foco da Planetary Resources e sua recm-apresentada competidora, a Deep Space Industries, agora  buscar financiadores. 
     A Planetary Resources parece estar mais adiante nesse quesito. Entre seus investidores esto Eric Schmidt e Larry Page, respectivamente presidente e CEO do Google, e Charles Simonyi, programador hngaro-americano que fez fortuna na Microsoft. De quebra, ela tem o cineasta James Cameron na funo de consultor. No que diz respeito  qualidade tcnica das equipes, ambas as empresas esto muito bem servidas. Renem ex-funcionrios do JPL (Laboratrio de Propulso a Jato) da Nasa, engenheiros que ajudaram a colocar os jipes robticos Spirit e Opportunity em Marte, e por a vai. Pessoas que sabem o que esto fazendo. Mas ser que esto  altura do desafio, e tm como pagar a conta? 
     
ASTEROIDES E ASTEROIDES 
     Nem todos os pedregulhos espaciais so iguais. E nem todos esto no mesmo lugar. O maior repositrio de asteroides  o cinturo que existe entre as rbitas de Marte e de Jpiter  a uma distncia bem grande da Terra.  l que reside, por exemplo, um asteroide chamado Germania. Estudos telescpicos sugerem que essa pedrona de 169 km de dimetro  riqussima em metais preciosos. Pense alto. Mais alto. Mais. Estima-se que o valor dela seja superior a US$ 100 trilhes.  mais do que toda a riqueza produzida no mundo inteiro ao longo de um ano. Mas estima-se que, para explorar todo esse potencial, seria preciso investir USS 5 trilhes  quase 300 vezes o oramento anual da Nasa. 
     Por isso, os primeiros mineradores espaciais esto pensando mais modestamente. A ideia  comear mais perto de casa. O asteroide 2012 DA14, por exemplo, que em fevereiro passou "perto" (a 27 mil km) da Terra, tem valor estimado em US$ 195 bilhes. Mas as naves e os equipamentos necessrios para explor-lo ainda no existem. Antes de comear a construir tudo isso, as empresas de minerao espacial vo fazer um mapeamento detalhado de seus possveis alvos. Como o asteroide 5143 Heracles, que mencionamos no comeo deste texto. Ele fica a 8,6 milhes de quilmetros da Terra   seis vezes mais perto do que Marte. E h asteroides mais prximos daqui do que a Lua, ou seja, praticamente vizinhos nossos. "Cerca de 900 asteroides que passam perto da Terra so descobertos a cada ano", afirma David Gump, presidente da Deep Space Industries. 
     A empresa pretende construir sondas de baixo custo, que faro um reconhecimento dos asteroides. Batizadas de Firefly, so pequenas naves de 25 kg que devem comear a voar em 2015, pegando carona em lanamentos comerciais de satlites. J para a Planetary Resources, o ponto de partida  lanar uma rede de telescpios espaciais, batizados de Arkid-100, que iro tentar descobrir asteroides que possam ter passado despercebidos. Em seguida, analisando o albedo (termo tcnico para o brilho) dos objetos, os cientistas da empresa tentaro identificar quais so os mais valiosos. Eles querem lanar o primeiro desses telescpios j no ano que vem, a um custo de US$ 1 milho. 
     Depois de encontrar e selecionar um alvo, a sim a Planetary Resources enviaria uma espaonave, batizada de Arkid-200, para analisar de perto cada metro quadrado do asteroide. "Ns vamos conhec-lo nos mnimos detalhes antes que cheguemos l para miner-lo", diz Eric Anderson, que comanda a empresa ao lado de Diamandis e  fundador da companhia Space Adventures, que envia turistas  Estao Espacial Internacional (por US$20 milhes). 
     At a, tudo bem. Mas quando chega a hora de explorar, as coisas se complicam. Tirar pedaos de um asteroide e traz-los de volta  Terra pode ser muito mais difcil do que se imagina. O melhor exemplo disso  a sonda japonesa Hayabusa, que em 2010 fez uma misso cheia de complicaes (sofreu danos por uma tempestade solar, seus equipamentos comearam a pifar) para trazer uns mseros grozinhos de p do asteroide Itokawa. E a misso Osiris-Rex, que a Nasa pretende lanar em 2016 para trazer uma amostra de 60 gramas de um asteroide, ir custar USS 800 milhes  isso d US$ 13 milhes por grama. 
     A Planetary Resources aposta numa estratgia sob medida para reduzir esse custo. Em vez de apresentar agora sua superespaonave de minerao, com todos os acessrios e equipamentos, s ir projet-la depois de escolher o alvo. A Deep Space Industries  mais arrojada nesse sentido. Sua segunda gerao de espaonaves, a Dragonfly, tem por objetivo colher amostras de potenciais alvos e traz-las de volta  Terra at o final desta dcada. Dentro de dez anos, a empresa espera estar fazendo as primeiras mineraes. 
     Pode parecer um delrio, mas no . Estudos da Nasa j discutem a possibilidade de rebocar um pequeno asteroide at a rbita da Lua para estud-lo melhor, e tcnicas similares poderiam ser usadas para a explorao de recursos minerais. "Os planos at so viveis", afirma Cassio Leandro Barbosa, astrnomo da Univap (Universidade do Vale do Paraba), em So Jos dos Campos. "O que no d para acreditar  na escala de tempo apresentada. Falam em minerao j a partir de 2020, em menos de sete anos. No creio que em menos de 20 anos algum consiga trazer uma pequena amostra de um desses asteroides." 
     Tambm h um problema de ordem econmica.  possvel imaginar o que fazer com platina e ouro obtidos de asteroides. Mas eles teriam de ser revendidos bem lentamente, ou seu preo na Terra simplesmente despencaria (pois  justamente a escassez desses metais que os torna valiosos). Por isso, a Planetary Resources e a DSI poderiam levar dcadas at recuperar seu investimento. Para antecipar o lucro, alguns subprodutos poderiam ser vendidos no prprio espao. Certos asteroides so uma fonte riqussima de gua, que pode ser usada para alimentar estaes espaciais ou transformada em hidrognio para abastecer naves. Mas isso s tem valor se tiver gente querendo comprar. "Transformar uma atividade dessas em sucesso comercial depende da demanda pelo material a ser minerado, e ela ainda no existe", diz Barbosa. 
     Mas os pioneiros no do bola para o ceticismo. Peter Diamandis lembra de uma histria que o escritor Arthur Clarke, idealizador dos satlites geoestacionrios (usados em telecomunicaes), costumava contar: "Ideias realmente revolucionrias passam por trs fases. Na primeira, as pessoas vo dizer que a sua ideia  maluca, que nunca vai funcionar. Na segunda fase, os crticos dizem que at poderia funcionar. Na terceira, eles vo dizer que sempre acreditaram no sucesso." O tempo dir. 

OS 4 ASTERIDES MAIS DESEJVEIS

162385
Dimetro: 600 metros
Distncia da Terra: 12 milhes de km
Valor estimado j descontando os custos da misso: US$ 6,9 trilhes

4034 VISHNU
Dimetro: 420 metros
Distncia da Terra: 1,5 milho de km
Valor estimado j descontando os custos da misso: US$ 5,28 trilhes

65679
Dimetro: 730 metros
Distncia da Terra: 1,9 milho de km
Valor estimado j descontando os custos da misso: US$ 1,74 trilhes

7753
Dimetro: 1000 metros
Distncia da Terra: 1 milho de km
Valor estimado j descontando os custos da misso: US$ 1,31 trilho

Distncia Terra  Lua: 384 mil km
Distncia Terra  marte: 54 a 401 milhes de km (dependendo da rbita)

A NOVA CORRIDA DO OURO
Como a minerao espacial poder funcionar

1- A PESQUISA. 2014 e 2015
Uma rede de 15 minissatlites (1 metro de comprimento cada)  lanada e comea a capturar imagens de asteroides, usando cmeras comuns e especiais.

2- A ANLISE. 2016 a 2019
Essas imagens so analisadas e, a partir delas, identificam-se os asteroides que podem conter minrios de valor.
8800  Asteroides descobertos at o momento
900 Asteroides descobertos por ano
1500 Asteroides relativamente prximos da Terra (mais fceis de alcanar do que a Lua.)

3. A VIAGEM. 2020
Uma ou mais espaonaves no-tripuladas so enviadas at o asteroide e pousam nele. Essa tecnologia j existe: em 2001, a Nasa conseguiu pousar uma sonda no asteroide Eros, a 313 mil quilmetros da Terra.

4. A EXTRAO. 2020+
Os braos robticos da nave perfuram o asteroide e sugam os minrios, que so separados, processados e colocados em cpsulas, que so lanadas de volta.

5. O RESULTADO
Os minrios podem ser comercializados na Terra ou usados como matria-prima para a construo de bases espaciais. Alm de metais pouco valiosos, como ferro, nquel e cobalto, alguns asteroides contm ouro, platina e paldio.
Alm disso, eles podem ter at 20% de gelo, que pode ser transformado em:
GUA POTVEL Para alimentar colnias espaciais
OXIGNIO Para respirar
HIDROGNIO Combustivel
Um asteroide pode conter at 250 milhes de litros de gua.

PARA SABER MAIS
Mining The Sky: Untold Riches From The Asteroids
John S. Lewis, Basic Books,1997.


